Prefeitura quer mudar o regime dos servidores: promessa de modernização ou aposta arriscada com a aposentadoria alheia?
Enquanto o discurso oficial fala em “adequação jurídica” e “modernização administrativa”, documentos revelam que a Prefeitura de Bom Jesus do Itabapoana estuda uma mudança profunda no regime jurídico e previdenciário dos servidores municipais. Na prática, trata-se de mexer diretamente na aposentadoria, na segurança financeira e nos direitos de quem sustenta o funcionamento da máquina pública.
A proposta já motivou consulta formal ao Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ). E é aí que o sinal de alerta começa a piscar.
📌 O que a Prefeitura quer mudar (sem dizer isso tão claramente)
O Município quer saber se pode tirar servidores do regime celetista (CLT) e empurrá-los para o regime estatutário, apoiando-se na decisão recente do Supremo Tribunal Federal (STF) na ADI 2135, julgada em novembro de 2024.
O STF, de fato, abriu a porta ao dizer que Estados e Municípios podem adotar mais de um regime jurídico. Mas vale destacar o detalhe que raramente aparece nos discursos oficiais: pode não é deve.
A decisão não obriga mudança nenhuma. Apenas autoriza — desde que seja feita por lei, com estudos técnicos, sem improviso e, principalmente, sem prejudicar quem já está no serviço público.
🏛️ Quem pediu a consulta? Spoiler: não foi o servidor
Vale um esclarecimento importante — e conveniente para entender o contexto político da história.
A consulta ao Tribunal de Contas não caiu do céu nem surgiu por pressão dos servidores. Ela foi feita a pedido direto do prefeito municipal, com aval formal e parecer favorável do Procurador-Geral do Município, Dr. Thiago Mota Gonçalves.
Ou seja: não estamos falando de um estudo acadêmico ou de um debate provocado por sindicatos. Trata-se de uma iniciativa do próprio Executivo, chancelada juridicamente pela Procuradoria do Município.
Na prática, isso deixa claro que:
- A discussão não é hipotética
- A intenção política existe
- O governo municipal está testando os limites legais antes de avançar
Traduzindo para o bom português: antes de mexer no vespeiro, o prefeito quis saber até onde pode ir sem levar ferro.
🧾 Regime atual: chato para o gestor, seguro para o servidor
Hoje, boa parte dos servidores está no regime celetista, contribuindo para o INSS. Não é perfeito, mas tem uma vantagem enorme: não depende da boa vontade nem da saúde financeira da Prefeitura.
No regime atual, o servidor tem:
- Regras nacionais, estáveis e conhecidas
- Aposentadoria paga pelo sistema federal
- FGTS garantido
- Menos risco de surpresas desagradáveis no futuro
Já o regime estatutário, geralmente ligado a um regime próprio de previdência (RPPS), funciona assim:
👉 Se o município vai bem, ótimo. 👉 Se o município quebra, atrasa ou administra mal, o problema cai no colo do servidor.
Em cidades pequenas, com histórico de dificuldades financeiras, déficits e improvisos, o regime próprio costuma ser visto não como segurança, mas como aposta.
⚠️ Onde o servidor perde (ou pode perder feio)
Apesar do discurso técnico e dos pareceres cheios de cautela, a mudança de regime pode significar perdas bem concretas:
🔻 Previdência
- Risco de déficit atuarial no regime próprio
- Incerteza sobre a capacidade futura do município pagar aposentadorias
- Mudanças nas regras de aposentadoria ao longo do tempo
🔻 Direitos trabalhistas
- Adeus ao FGTS
- Alterações em adicionais e vantagens
- Regras menos claras e mais sujeitas a mudanças políticas
🔻 Segurança jurídica
- Transição mal feita costuma terminar em ações judiciais
- Servidores podem ficar presos a um regime pior do que o anterior
Curiosamente, os próprios documentos da Prefeitura reconhecem que direitos adquiridos precisam ser preservados. Traduzindo: sabem que, se mexer errado, o estrago vem — e vem caro.
📊 Impacto financeiro: silêncio onde deveria haver números
Aqui está o ponto mais sensível — e convenientemente o mais vazio.
Para mudar o regime, a Prefeitura teria que apresentar:
- Estudo de impacto orçamentário
- Avaliação atuarial detalhada
- Provas de que consegue sustentar o regime próprio por décadas
Até agora, o que existe é:
✔️ Consulta ao TCE-RJ ✔️ Parecer jurídico dizendo que a dúvida é relevante
❌ Nenhum estudo público mostrando quanto isso vai custar ❌ Nenhuma garantia real apresentada aos servidores
Ou seja: muito papel, pouca conta.
🛑 O que falta para isso virar realidade (e não é pouca coisa)
Apesar do barulho de bastidor, a mudança ainda está longe de acontecer legalmente. Para sair do papel, a Prefeitura precisaria:
- Criar uma lei específica
- Apresentar estudos técnicos e atuariais robustos
- Garantir, por escrito, a manutenção dos direitos adquiridos
- Passar pelo crivo da Câmara Municipal
- Obter uma manifestação definitiva do TCE-RJ
Sem isso, qualquer tentativa de mudança é, no mínimo, temerária — e, no máximo, ilegal.
❓ A pergunta que não quer calar
A decisão do STF abriu uma possibilidade jurídica. Mas a pergunta política e moral continua sem resposta:
➡️ Quem ganha com essa mudança? ➡️ Quem perde? ➡️ E quem vai pagar a conta se o novo regime não se sustentar?
Porque quando o assunto é previdência, o erro não aparece hoje nem amanhã. Ele explode lá na frente — exatamente quando o servidor já não tem mais como voltar atrás.
Enquanto as respostas não forem dadas com números, garantias e transparência, a desconfiança dos servidores não é exagero. É instinto de sobrevivência.
Fonte: TCE RJ



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