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Entre a Câmera e a Consciência: O Dilema da Cultura do Registro

Entre a Câmera e a Consciência: O Dilema da Cultura do Registro

Vivemos em uma época em que quase todo mundo tem uma câmera no bolso. O celular, além de conectar, virou ferramenta de registro instantâneo. Mas junto com essa possibilidade veio um dilema: em situações de violência, tragédia ou injustiça, o que fazer primeiro — ajudar, denunciar ou gravar?

A chamada “cultura do registro” transformou-se em hábito. Diante de um acidente, uma briga ou até mesmo de um ato de corrupção, o instinto de muitas pessoas não é intervir, mas apertar o botão de “gravar”. A justificativa quase sempre é válida: “se eu não filmar, ninguém vai acreditar”, “é importante ter prova”, “assim a denúncia ganha força”. E, de fato, o registro já ajudou a punir agressores, denunciar abusos e expor situações que ficariam invisíveis sem a força das imagens.

Mas há o outro lado: a espetacularização. A gravação que deveria servir como prova vira entretenimento, circula em grupos de WhatsApp, vira piada em memes, rende curtidas e comentários. A dor do outro é transformada em espetáculo, e a empatia dá lugar à curiosidade.

Esse dilema nos chama à reflexão:

  • Quando gravamos, estamos ajudando ou apenas assistindo?
  • Se a vida de alguém está em risco, não seria mais urgente chamar ajuda antes de buscar o celular?
  • E quando publicamos, estamos denunciando ou explorando a dor alheia?

O que precisamos é de consciência. Registrar pode ser necessário, mas o destino desse registro faz toda a diferença. Imagens encaminhadas às autoridades competentes podem salvar vidas e gerar justiça. Já aquelas jogadas nas redes, sem responsabilidade, podem reforçar estigmas, traumatizar vítimas e alimentar uma sociedade que consome tragédia como espetáculo.

A tecnologia deve estar a serviço da cidadania — não do sensacionalismo.
Na próxima vez que você se deparar com uma situação difícil, respire e se pergunte:
👉 Estou gravando para ajudar ou apenas para expor?

A resposta a essa pergunta pode definir se você está sendo parte da solução ou apenas espectador de mais um capítulo da espetacularização da vida real.

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