Depois de 3 anos, prefeito resolve fazer “choque de ordem”: gestão acordou ou é abafa político pós-eleição?
Uma cena chamou a atenção nesta semana em Bom Jesus do Itabapoana. Depois de cobranças da Associação Comercial sobre a situação do Centro da cidade, o prefeito Paulo Sérgio Cyrillo resolveu ir para as ruas e participar pessoalmente de uma espécie de “choque de ordem”.
Até aí, ótimo.
O problema é a pergunta que não quer calar: por que somente agora?
A situação do Centro não nasceu ontem. As reclamações se arrastam há anos e remontam, inclusive, a 2023, quando já existiam queixas relacionadas à ocupação e à desorganização de espaços públicos, inclusive situações envolvendo usuários atendidos pelo CAPS.
Ou seja: aquilo que agora aparece nos vídeos do governo poderia ter sido enfrentado institucionalmente muito antes.
Mas, como já virou costume em Bom Jesus, parece que alguns problemas ganham uma atenção especial quando existe uma câmera ligada.
A população espera planejamento, fiscalização, definição dos órgãos responsáveis, acompanhamento e, principalmente, continuidade. Afinal, choque de ordem não pode durar apenas o tempo de um vídeo nas redes sociais.
E existe outro detalhe que inevitavelmente chama a atenção:
a movimentação acontece justamente depois das eleições de 2026.
Coincidência ou ressaca eleitoral?
A presença repentina do chefe do Executivo nas ruas também permite uma leitura política, principalmente diante do resultado das urnas e de informações que começaram a circular nos bastidores depois da eleição.
Este blog recebeu relatos de que levantamentos internos estariam apontando desgaste na avaliação do governo municipal.
Como não tivemos acesso à íntegra de qualquer pesquisa, sua metodologia ou seus números oficiais, não é possível confirmar percentuais. Portanto, tratamos essa informação exclusivamente como relato de bastidores.
Mas existe algo que não depende de pesquisa interna: as urnas.
E alguns resultados de candidatos que contaram com apoio de integrantes ou pessoas politicamente ligadas ao grupo governista chamaram atenção.
Max Lemos registrou 123 votos no município. Durante a campanha, seu nome esteve relacionado ao apoio de pessoas ligadas ao governo, entre elas Alexandre Alcântara e o secretário de Esportes, Ximaru.
Bernardo Rossi teve 168 votos, apesar de também ter sido apontado nos bastidores políticos como um dos candidatos que contavam com simpatia e apoio de integrantes do grupo.
Carla Machado registrou 119 votos, tendo seu nome relacionado ao apoio de pessoas nomeadas na área da Saúde.
Já Lindbergh chegou a 445 votos.
São números oficiais das urnas. A interpretação política deles fica por conta de cada leitor.
Para este blog, porém, os resultados permitem questionar qual é hoje a verdadeira capacidade de transferência de votos do grupo que administra Bom Jesus do Itabapoana.
E Léo Gás?
Esse merece um capítulo separado.
O secretário Léo Gás entrou na campanha com forte mobilização política.
Foram caminhadas, carro de som, apoiadores nas ruas e participação de diversos integrantes do grupo governista.
Em determinados momentos, a movimentação lembrava muito mais uma prévia de disputa municipal do que simplesmente uma campanha para deputado.
Léo conseguiu o melhor desempenho eleitoral entre os nomes que tiveram forte mobilização de integrantes desse grupo político.
Mas aí surge outra pergunta:
diante de toda a mobilização realizada, o resultado alcançado foi realmente o esperado?
Essa avaliação cabe ao próprio grupo político — e, claro, ao eleitor.
Jair Bittencourt e Chris Tonietto
Por outro lado, Jair Bittencourt e Chris Tonietto conseguiram votações expressivas no município.
Nesse caso, existe também um histórico de relações políticas e apoios envolvendo instituições e setores da cidade, como hospital, abrigo, entidades sociais e outros segmentos.
São relações construídas ao longo do tempo e que ajudam a compreender por que determinados candidatos conseguem estabelecer identificação própria com parte do eleitorado, independentemente da capacidade de transferência de votos do governo municipal.
Depois das urnas… apareceu o prefeito
Passada a eleição, veio a ressaca.
E eis que o prefeito resolveu aparecer nas ruas.
Depois de três anos de governo, problemas antigos parecem ter adquirido uma urgência impressionante.
O Centro virou prioridade.
O prefeito apareceu.
Os vídeos começaram.
E o “choque de ordem” finalmente chegou.
Que bom.
Toda ação séria destinada a organizar a cidade merece continuidade.
Mas a população também tem todo o direito de perguntar:
por que demorou tanto?
Foi a cobrança da Associação Comercial que finalmente colocou o problema no centro das atenções?
Foi uma mudança de postura administrativa?
Foi uma reação política depois do resultado das urnas?
Ou o governo finalmente percebeu que precisava voltar para as ruas?
Não temos como afirmar qual dessas hipóteses explica a nova postura.
Mas podemos fazer as perguntas.
E convenhamos: quando a eleição termina e, de repente, problemas que estavam na rua há anos ganham urgência, a população tem todo o direito de desconfiar do despertador.
Pode ser coincidência.
Pode ser uma nova fase administrativa.
Pode ser o governo tentando recuperar espaço político.
O tempo vai responder.
Enquanto isso, fica uma sugestão:
que o prefeito continue nas ruas.
Não apenas durante a gravação dos vídeos.
Não apenas depois das eleições.
Não apenas quando alguma entidade cobra.
Mas resolvendo os problemas.
Porque Bom Jesus não precisa de “choque de ordem” para rede social.
Precisa de ordem, fiscalização e gestão todos os dias — com eleição ou sem eleição.
Fotos: Divulgação Redes Sociais / Fonte: TSE



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