Falta de remédios continua em Bom Jesus, mesmo com mais de R$ 3 milhões empenhados para medicamentos em 2026, segundo Portal da Transparência
As reclamações sobre a falta de medicamentos na rede municipal de Saúde de Bom Jesus do Itabapoana continuam chegando a este blog. Desta vez, os relatos envolvem amitriptilina, Stalevo 100/25/200 mg, medicamentos de uso contínuo, controlados e até remédios que deveriam ser fornecidos por determinação judicial.
Além da falta de medicamentos, pacientes também relatam dificuldades para conseguir até mesmo exames de sangue, com a informação de que a “cota acabou”.
Enquanto isso, levantamento feito por este blog no próprio Portal da Transparência da Prefeitura mostra que a Secretaria Municipal de Saúde registra, em 2026, pelo menos R$ 3 milhões em empenhos líquidos para empresas claramente ligadas ao fornecimento de medicamentos, farmácias e drogarias.
A pergunta é inevitável: com milhões empenhados, por que o remédio continua faltando para quem precisa?
Amitriptilina continua entre as reclamações
Um dos relatos recebidos pelo blog é de um paciente que afirma enfrentar dificuldades recorrentes para conseguir amitriptilina, medicamento de uso controlado, na farmácia do CAPS.
Segundo ele:
“Até hoje não tem amitriptilina. Sempre está faltando remédio de uso contínuo lá, e a desculpa é que a empresa da licitação não entregou.”
Em outro relato encaminhado ao blog, o morador também reclama da falta do medicamento:
“Não tem amitriptilina na farmacinha do CAPS e quem não tiver renda fica sem tomar o medicamento.”
A identidade do denunciante será preservada a pedido dele.
O blog também recebeu reclamações relacionadas ao fornecimento do Stalevo 100/25/200 mg, medicamento prescrito para tratamento da doença de Parkinson, além de relatos envolvendo outros medicamentos de uso contínuo e medicamentos fornecidos por determinação judicial.
“Acabou a cota” até para exame de sangue
E a reclamação não fica apenas nos medicamentos.
Um morador contou ao blog que tentou marcar um exame de sangue, mas, quando chegou sua vez, recebeu a informação de que a cota havia terminado e que deveria tentar novamente somente no próximo mês.
Segundo o relato:
“Fui hoje e, quando chegou na minha vez, só responderam que acabou a cota, que agora só dia 04 do mês que vem.”
O paciente afirma estar com alteração de glicemia, em investigação para possível diabetes, e reclama da dificuldade para conseguir realizar um exame básico.
Ele ainda fez uma afirmação preocupante: segundo seu relato, em situação semelhante no ano passado, somente conseguiu atendimento depois de procurar ajuda de vereador.
Se isso estiver acontecendo, é preciso esclarecer quais são os critérios para marcação dos exames. Saúde pública não pode depender de indicação política.
Portal da Transparência mostra mais de R$ 3 milhões empenhados
Diante das reclamações, este blog analisou o relatório de empenhos de 2026 da Secretaria Municipal de Saúde, disponibilizado no Portal da Transparência.
O documento registra diversos empenhos destinados a empresas do segmento de farmácias, drogarias, distribuidoras e fornecedoras de medicamentos. Em junho, por exemplo, aparecem numa mesma sequência vários fornecedores identificados expressamente como farmácia, laboratório e distribuidoras de medicamentos.
O levantamento encontrou aproximadamente R$ 3.476.220,72 em empenhos brutos para empresas claramente identificadas com esse segmento.
Como também existem anulações, que somam aproximadamente R$ 416.784,02, o levantamento chegou a cerca de:
R$ 3.059.436,70 em empenhos líquidos
Ou seja, mais de R$ 3 milhões.
O cálculo foi feito de forma conservadora. Foram consideradas empresas cuja própria denominação permite identificar relação direta com farmácias, drogarias, medicamentos, farmacêuticas, laboratórios de manipulação e atividades semelhantes.
Fornecedores genericamente identificados como empresas de produtos hospitalares não foram automaticamente incluídos, porque um empenho desse tipo pode envolver materiais e insumos que não sejam medicamentos.
Portanto, o valor relacionado direta ou indiretamente à compra de remédios pode ser ainda maior.
O relatório também registra anulações de empenhos envolvendo fornecedores do setor farmacêutico, razão pela qual o levantamento considerou o valor líquido.
Dinheiro empenhado existe. E o medicamento?
É justamente essa comparação que precisa ser explicada pela Secretaria Municipal de Saúde.
De um lado, temos mais de R$ 3 milhões líquidos empenhados em 2026 para fornecedores claramente ligados ao setor de medicamentos.
Do outro, pacientes relatam falta de amitriptilina, falta de Stalevo, dificuldades com medicamentos de uso contínuo, reclamações envolvendo medicamentos judicializados e até dificuldade para marcar exame de sangue por suposto fim da “cota”.
Não estamos falando de luxo.
Estamos falando de medicamentos necessários para tratamentos contínuos e de pacientes que dependem da rede pública.
“A empresa não entregou” não pode encerrar o assunto
Outro ponto que chama atenção é a justificativa que, segundo pacientes, estaria sendo apresentada: “a empresa da licitação não entregou”.
Se houve descumprimento contratual, então a Administração precisa informar quais providências tomou.
O fornecedor foi notificado? Houve aplicação de penalidade? O segundo colocado foi convocado? Foi realizada compra emergencial quando necessária? Existem medicamentos aguardando entrega?
Porque o cidadão não participou da licitação e não escolheu o fornecedor.
Quem contratou foi o poder público.
Para o paciente, o resultado final precisa ser um só: o medicamento disponível quando ele precisar.
O problema não está no papel, está na prateleira vazia
Licitação, ata, empenho e ordem de fornecimento são instrumentos administrativos importantes. Mas nenhum deles substitui o medicamento na mão do paciente.
Mais de R$ 3 milhões empenhados impressionam no Portal da Transparência. Para quem chega à farmácia pública e escuta que o remédio não tem, porém, o número pouco consola.
Se o dinheiro está sendo empenhado e determinados medicamentos continuam faltando, é preciso descobrir onde está o problema.
Na licitação? No fornecedor? Na fiscalização dos contratos? No planejamento das compras? Na distribuição? Ou no controle de estoque?
O que não pode acontecer é o paciente ficar no meio dessa história, esperando pelo medicamento necessário ao seu tratamento.
Este blog deixa espaço aberto à Prefeitura Municipal de Bom Jesus do Itabapoana e à Secretaria Municipal de Saúde para esclarecimentos sobre as reclamações apresentadas, especialmente sobre a falta de amitriptilina, Stalevo 100/25/200 mg, medicamentos de uso contínuo e judicializados, bem como sobre a limitação de vagas para exames laboratoriais.
Fonte: Portal da Transparência / Imagem capa :IA





Publicar comentário