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Enamed expõe falhas graves na formação médica: alunos erram questões básicas sobre sintomas graves de dengue, como febre, dores intensas e vômitos fora de controle

Enamed expõe falhas graves na formação médica: alunos erram questões básicas sobre sintomas graves de dengue, como febre, dores intensas e vômitos fora de controle

O Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes de Medicina (Enamed) acendeu um alerta vermelho sobre a qualidade da formação médica no Brasil. Dados oficiais mostram que mais de 30% dos cursos de medicina do país tiveram desempenho insuficiente, com estudantes do último ano errando questões consideradas básicas para o exercício da profissão.

Entre os erros mais preocupantes estão temas recorrentes na rotina do Sistema Único de Saúde (SUS), como diagnóstico e manejo da dengue, avaliação de dores de cabeça persistentes e prescrição correta de medicamentos.

Uma das questões, classificada como fácil pelo Inep, perguntava qual conduta o médico deveria adotar diante de sintomas graves de dengue, como febre alta, dores intensas e vômitos fora de controle. Nada menos que 66% dos estudantes erraram a resposta. Em outro recorte, 65% dos alunos reprovados falharam exatamente nessa mesma questão.

“Dengue é uma questão muito comum no nosso país”, alertou o presidente do Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro, Alexandre Telles.

“Isso pode significar você enviar para casa, com tratamento inadequado, um paciente que pode evoluir mal, por exemplo, para uma dengue hemorrágica, num caso grave.”

Outra pergunta tratava de dor de cabeça, descrevendo uma paciente de 55 anos, sem histórico de doenças crônicas, com dor persistente dos dois lados da cabeça, alterações da visão e cansaço. A resposta correta era simples: solicitar um exame de sangue para investigar uma possível inflamação nos vasos sanguíneos. Mesmo assim, a maioria errou.

“Surpreende, porque se o estudante de medicina, que daqui a pouco vai ser médico, não sabe manejar uma dor de cabeça, reconhecer sinais de gravidade e sinais de alerta, isso é muito preocupante”, completou Telles.

Aluno vai bem, faculdade vai mal

O contraste entre esforço individual e falhas institucionais ficou evidente no caso de Victor Miranda, bolsista do ProUni. Victor obteve nota 8,2 no Enamed, acima da média nacional, mas estuda em uma faculdade que recebeu nota 2, considerada insuficiente.

Segundo ele, o problema vai além da prova.

“O que acontece com a minha faculdade acontece com várias faculdades privadas ao longo do Brasil. Acho que isso também é uma questão da mercantilização da medicina, da medicina virar sinônimo de lucro”, afirmou.

Relatos semelhantes se repetem pelo país. Um aluno de uma universidade reprovada no Rio de Janeiro, que preferiu não se identificar por medo de retaliação, contou que colegas ficaram revoltados ao presenciarem uma professora de patologia errar a prescrição de um medicamento em sala de aula.

Falta de especialistas e ensino frágil

Além dos erros nas provas, estudantes reclamam da falta de especialistas para ministrar disciplinas, estrutura precária e ensino excessivamente teórico. Embora o Enamed não tenha prova prática, o Ministério da Educação afirma que o exame cobra conhecimentos que todo aluno em final de curso já deveria dominar, especialmente aqueles que já atenderam pacientes.

Um exemplo foi a questão sobre a doença de Parkinson, que exigia reconhecer sintomas e indicar corretamente os medicamentos. 56% dos estudantes erraram os dois remédios básicos que deveriam ser oferecidos à paciente.

Exame de proficiência volta ao debate

Diante do cenário, o presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), José Hiran Gallo, afirmou que a entidade estuda medidas para impedir que estudantes de faculdades com desempenho insuficiente no Enamed atuem profissionalmente sem uma avaliação mais rigorosa.

Ele defende a aprovação do projeto de lei que cria um exame obrigatório de proficiência médica, semelhante ao da OAB para advogados.

“O Conselho Federal de Medicina está atento. É um órgão de defesa da sociedade e nós defendemos o exame de proficiência, o Profimed, que com certeza vai ser aprovado agora em fevereiro no Senado Federal”, declarou.

Um alerta à sociedade

Os números do Enamed não expõem apenas estudantes, mas escancaram um modelo de expansão desenfreada de cursos de medicina, muitas vezes sem estrutura adequada, corpo docente qualificado ou compromisso real com a formação de profissionais da saúde.

📍 Instituições com baixo desempenho no Enamed na região Norte e Noroeste do RJ (conceito 2):

  • Afya Centro Universitário Itaperuna – Itaperuna
  • Universidade Iguaçu (UNIG) – campus Itaperuna
  • Centro Universitário FAMESC (UniFAMESC) – Bom Jesus do Itabapoana
  • Faculdade de Medicina de Campos (FMC) – Campos dos Goytacazes

Quando erros básicos se tornam estatística, o risco não fica restrito à sala de aula — chega direto ao atendimento da população.

Fonte: G1, com edição deste blog.

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